Há nove anos

Há nove anos atrás eu acordei, em uma segunda-feira ensolarada, com um telefonema às 8:30 da manhã. Faz tanto tempo, mas eu lembro de todos os detalhes daquela manhã como se fosse ontem.

Do outro lado da linha, era a funcionária do hospital onde minha mãe estava internada. Ela não precisou dizer nada. Para o telefone tocar, tão cedo, não poderia ser coisa boa.

E não era.

Saí de casa em direção ao hospital. Na época, morava em Copacabana. O hospital ficava na Gávea. Mas aquela jornada dentro do táxi demorou tanto tempo que parecia que eu estava em uma viagem do Rio de Janeiro para qualquer cidade do nordeste, de tanto que demorava.

Cheguei no hospital, me encaminharam para uma sala e lá ouvi o que jamais queria ouvir. Depois de uma semana internada, minha mãe tinha perdido a luta para a diabetes e o meu mundo desabou. Era a primeira “pessoa próxima”que me deixava de repente. Tá, minha vó e uma tia faleceram anos antes, mas elas não conviviam tanto comigo e mãe é mãe. Na hora, só fiquei pensando em como seria ter que cuidar do meu pai, sozinha e o pior, como eu daria aquela notícia para um senhor de 81 anos na época. Como seria viver sem a Dona Luzia a partir daquele dia?

Há nove anos

Minha mãe foi uma das pessoas mais generosas que conheci. Por muitas vezes ela realizava meus desejos mesmo sem poder. Eu um dia quis um Master System, ela foi lá, sacou dinheiro da poupança e me deu de presente. Eu queria uma bicicleta “com marchas”, mais uma vez ela foi lá na poupança e realizou o desejo da filha. Mas isso não era só comigo. Ela sempre deixava de comprar ou fazer as coisas pra ela, para poder ajudar os outros. Sem pedir nada em troca. Nada mesmo.

Depois que ela faleceu, fiquei sabendo de histórias de pessoas que ela ajudava na igreja, de uma amiga próxima que ela ajudava sempre que podia e coisas do tipo.

Minha mãe também me salvou várias vezes de levar broncas épicas do meu pai.

Uma pena ela ter ido tão cedo, pois assim eu jamais consegui realizar alguns de seus sonhos, como ela realizou vários meus durante o período em que estivemos juntas. Se tem uma outra coisa que ficou faltando entre nós, foi uma conversa franca para me expor. Esse é um dos maiores arrependimentos que tenho na vida.

Minha mãe era uma católica daquelas bem praticantes e se fiz Primeira Comunhão foi por causa dela. Eu nunca liguei pra religião e nunca vi um propósito naquilo. Sendo assim, dá pra imaginar que ela procurava “seguir as leis da igreja”. Por isso, eu fui sempre adiando a tal conversa pra depois. Mas, sejamos sinceras. Mãe sempre conhece o filho, nesse caso a filha, muito bem. Eu não contei com todas as letras para minha mãe que eu estava em um relacionamento, mas tenho certeza que ela sabia disso muito bem.

E hoje, nove anos depois, o sentimento não é de tristeza, mas sim de saudade. A saudade nunca passa. Mas a tristeza que me abateu naquela segunda-feira, dia 22 de agosto de 2005, foi-se embora no momento em que eu percebi que a Dona Luzia não gostava de tristeza. E pra falar a verdade, eu também não. A vida continua, apenas sem a presença de algumas pessoas que amamos por perto fisicamente, mas sempre no coração.